“O dinheiro que ganho a vender água para as pessoas beberem, sustenta a minha família desde que perdi o meu emprego, há mais de 10 anos” – diz Ruth , vendedora de água numa das esquinas de Maputo, a cidade capital de Moçambique.
“Todos os dias, acordo bem cedo, apanho o chapa (autocarro) de Matola Rio para Maputo (25 km) para vir vender água fervida. Por dia chego a vender cerca de 20 litros de água. Agora no calor o negócio é bom. As pessoas sentem mais sede e por isso compram mais. No tempo de frio as coisas são mais difíceis...”
Desemprego em Moçambique
O desemprego e a pobreza que afecta as mulheres moçambicanas obriga-as a encontrarem soluções para sustentar as sua famílias. Estima-se que em Moçambique, pelo menos 19 % dos pobres vivem em agregados familiares chefiados por mulheres.
O comércio informal tornou-se nos últimos anos a forma mais comum de geração de rendimentos. É normal encontrarem-se nas ruas da capital moçambicana, mulheres a venderem desde roupas usadas a diversos tipos de vegetais.
Ruth escolheu vender água e gelinhos que ajudam a matar a sede dos milhares de transeuntes.
Negócio de água
O negócio de água para beber é rentável, numa cidade em que as deficientes condições de saneamento levaram as autoridades de saúde a declararem a água canalizada imprópria para o consumo, incentivando as pessoas a ferverem a água antes de a beber.
“Água mineral é muito cara. Ninguém compra. Por isso preferem comprar água que nós vendemos. Uma garrafa de meio litro de água fervida custa cerca de 2 meticais. As crianças gostam mais dos gelinhos porque são doces.”
Num dia quente de verão, Ruth faz um receita de 80 meticais (1 USD=26 mt), o que lhe dá uma média de 2400 meticais por mês, 500 meticais mais do que seria o seu salário, se tivesse mantido o emprego de servente que perdeu em 1999.
“Eu trabalhei alguns anos mas, depois disseram-nos que já não havia dinheiro e fomos mandados embora.... o meu marido também perdeu o emprego na mesma altura. Fomos indemnizados. Com o dinheiro da indemnização iniciei uma machamba. Meu marido agora faz biscatos”
Realidade social
O salário mínimo dos moçambicanos é de cerca de 60 dólares americanos. Entretanto, os sindicatos defendem que a cesta básica do trabalhador moçambicano só poderia ser satisfeita se o salário mínimo fosse de 3.500. Mt (140 USD).
Para além dos baixos salários, está a injustiça social e o custo de vida no país que é extremamente alto, não estando ao alcance de mais de 60% da população que vive nas zonas rurais e sobrevive graças à agricultura familiar.
“Eu cultivava milho mas a última colheita que tive foi há muito tempo.... Depois não deu certo..” explica Ruth.
Esforços do governo
O combate à pobreza e ao desemprego em Moçambique tem sido uma das prioridades do governo moçambicano, e foi uma das promessas eleitorais no escrutínio de 2004 que deu a vitória ao presidente Armando Guebuza.
O PES - Plano Económico Social dos últimos anos anuncia várias medidas de acesso à educação, à saúde, à agricultura e às infra estruturas básicas, principalmente para a mulher e a rapariga, por fazerem parte da camada considerada mais vulnerável à pobreza. Entretanto, para muitas mulheres como é o caso de Elisa, estas medidas ainda não começaram a ter efeitos visíveis.
“Eles (o governo) têm que mudar a maneira como nos tratam.... quero que me deixem vender. Dêem-nos licenças e nós vamos pagar impostos. Dêem-nos um lugar para vender. Não quero muito. Só que me deixem trabalhar para meus filhos poderem ir à escola” – terminou Ruth enquanto colocava na bolsa as moedas que acabava de receber de um cliente.
Foto tirada aqui